Monteiro Lobato e o Verdadeiro Folclore Brasileiro





  O escritor Monteiro Lobato foi, sem dúvida, um dos maiores escritores brasileiros. Muita gente conheceu o Folclore Brasileiro lendo as aventuras de Pedrinho e Narizinho no Sítio do Pica-Pau-Amarelo. Mas não podemos nos esquecer que é uma obra de ficção, foi a imaginação do escritor. Mas, pera lá, Fernando, e o folclore brasileiro também não é obra da imaginação? 
  Folclore são as crenças e costumes de um povo. A diferença para a ficção é que o folclore é uma tentativa de explicar a realidade, há pessoas que creem mesmo nas histórias; enquanto que a ficção é um exercício proposital de imaginação, escrito para entreter as pessoas, sem esperar que o leitores acreditem.
  Quando Monteiro Lobato pesquisou sobre as lendas brasileiras, ele encontrou histórias assustadoras, inapropriadas para crianças. Assim, ele adaptou o folclore brasileiro para crianças. As histórias do Sítio do Pipa-Pau-Amarelo foram tão influentes que passamos a enxergar o folclore brasileiro do modo como o escritor imaginou em sua ficção. 
  Ao meu ver, é negativo deixar obras de ficção influenciar o folclore. Como eu já salientei, há uma grande diferença entre ficção e as crenças de um povo. Por exemplo, o folclore brasileiro, como aprendemos na escola, ficou infantilizado, "lobatizado", digamos assim; diferente das lendas reais.
  Não, na lenda original, o saci não era um perneta sapeca. A cuca não era uma velha atrapalhada com cara de jacaré. O curupira não era bonitinho. As lendas reais podem ser até mais sombrias e cruéis.
  Vamos conhecer agora algumas dessas lendas direto de suas origens.

  O saci. A lenda do saci é muito interessante. Podemos ver incorporado nessa lenda mitos do mundo todo: Ele trança as crinas dos cavalos, como fazem os duendes europeus, é negro como na mitologia africana, fuma cachimbo como o curupira indígena e possui um gorro encantado como o Trasgo de Portugal. 
  O que acontece é que a lenda do saci foi contada, ao longo dos séculos, pelo povo brasileiro, na sua forma mais miscigenada: escravas negras, boas contadoras de histórias; famílias portuguesas; índios.
  O nome saci, vem de uma lenda indígena. Seria o saci original. Um anão indígena, conhecido também como iaci e matimpererê, que protegia as matas tupiniquns; era também uma divindade das plantas medicinais. E... pasmem agora... tinha duas pernas. Mas quem arrancou uma perna do coitado de saci?
  Essa característica surgiu quando as escravas negras contavam sobre a lenda do saci. Elas ouviam sobre uma divindade indígena guardadora dos segredos das plantas medicinais e identificavam essa lenda com o deus africano das plantas medicinais, de uma perna só, chamado Ossaim. Essa reinterpretação, de uma cultura para a outra, de uma lenda ou divindade, se chama sincretismo. (podemos conversar mais sobre em um artigo futuro, que tal?)
  Similarmente com esse sincretismo entre mitologia tupi e africana, quando a lenda do saci foi contada por portugueses, recebeu um gorrinho de Trasgo. 
Seria a lenda do curupira bobinha como aprendemos na escola?
  O Brasil é uma bela mistura de culturas, não acha?

  O curupira. Na escola, quando aprendemos sobre folclore, o curupira sempre aparece em forma de deseinho, sorrindo e pulando de alegria. Mas o curupira real é outra história.
  O curupira é uma lenda indígena que aterrorizou os colonizadores portugueses, chamada por eles de demônio, sim, o demo. Eu vou passar a palavra, agora, para o nosso querido padre José de Anchieta, que descreveu a criatura, como era contada pelos índios, em 30 de maio de 1560:






É  cousa  sabida  e  pela  boca  de  todos  corre  que  há  certos  demônios,  a  que  os  Brasis  chamam  corupira, que  acometem aos índios muitas vezes no mato, dão-lhes açoites, machucam-os e matam-os. São testemunhas disto os nossos Irmãos, que viram algumas vezes os mortos por eles.
-   Carta  endereçada  “Ao  Padre  Geral,  De  São  Vicente, ao  ultimo  de  maio  de  1560”  in: , José de ANCHIETA, Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões do Padre Joseph
de Anchieta.(1554-1594). 

  A Cuca. Personagem muito popular presente em cânticos para ninar crianças (ninar?). A cuca é, basicamente, uma mistura, no folclore português, de homem do saco com bicho papão, do sexo feminino. Ou seja, era uma história contada pelos pais para desencorajar a desobediência nas crianças. 
  Os pobres pequenos eram apavorados com histórias que, se desobedecessem, a cuca, uma velha, vinha para colocar eles em um saco e levar para comer depois.


  A lenda da cuca foi totalmente descaracterizada por Monteiro Lobato, para excluir o teor canibalesco da lenda. De uma velha canibal, virou uma jacaré desajeitada.

  Enfim, é muito interessante analisar como as lendas passam por transformações conforme entram em contato com diversas culturas. Mas é interessante valorizarmos as origens das lendas, que acabam se perdendo em tantas transformações.




  Você conhece alguma outra lenda assustadora da mitologia brasileira que foi amenizada ao longo do tempo? Comente aí para nós e agracie-nos com os seus conhecimentos também! Ou diga o que achou do artigo e compartilhe nas redes sociais.


6 comentários:

  1. Maravilha de texto, Fernando!
    Vou aguardar o artigo sobre sincretismo.

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    1. Obrigado! Vou estudar bem o sincretismo e vou fazer um matéria bem legal!

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  2. Muito interessante! Concordo plenamente em manter a originalidade do folclóre, bem como desmistificar algumas variações da história. O canal History, NET 83, começou a passar um programa com esta intenção sobre a história brasileira.

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  3. Eu sempre apreciei lendas. Assisto a documentários e leio também. Interessante sua explanação. Parabéns!

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    1. Também leio muito; é um assunto que eu vivo pesquisado! As melhores histórias surgem de quem acredita mesmo nelas!

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Fernando Vrech. Imagens de tema por andynwt. Tecnologia do Blogger.