O Despertar do Ajna


Domingo, terceiro dia de internação.

As conversas com Daren se estendem agora durante o dia inteiro; acho que faz mais sentido considerar Daren um paciente internado, e não um paciente recorrente. Após mais uma noite sem dormir, Daren faz um relato, durante o café da manhã, que me deixou muito preocupado:

“Doutor Adler, não me parece muito seguro deixar seu animal de estimação perambulando por aquele porão perigoso que manténs lá embaixo.”

“Animal, Daren. Não possuo nenhum animal! Exceto, é claro, os artrópodes que ficam confinados no próprio porão.”

“Estranho, Apolo. Pois essa noite eu tive uma companhia animal desagradável durante meus estudos.”
 

“Prossiga, Daren”

“Já era uma duas da madrugada e eu estava tendo avanços com o estudo do Ajna quando um cão de grande porte simplesmente apareceu intrusivo, caminhando calmamente, saindo dentre as estantes da biblioteca. O cão era um… mastiff, talvez; de pelagem totalmente preta.”

“Cane Corso.”

“Esse é o nome da raça?”

“Sim, é o mais se aplica à descrição que você fez, Daren.”

“Pois é, mas esse Cane Corso estava muito sinistro. A linguagem corporal do cão, o modo como ele se aproximou, não era como se quisesse brincadeira. Mas também não era como se ele me visse como um filé gigante, entende? Ele não estava exatamente agressivo.”

 
 “Do meu ponto de vista, sentando na escrivaninha, estudando, o cão surgiu dentre as estantes até que a metade dele pudesse vista por mim, daí parou. Olhou para o lado de lá, olhou para o lado de cá, e fitou os olhos em mim, aqueles olhos cor de vinho... acesos. Não sei se aquele olhos eram olhos comuns mas estava um bocado escuro no porão, poderia ser a visão noturna do cão. Aliás, você
deveria considerar o uso de mais lâmpadas elétricas naquele porão… pelo amor de deus Adler.”

“Anotado, mas continue, não se perca.”

“Ele me fitou com aqueles olhos acesos e retomou o passo, em minha direção. Não demonstrou nenhuma emoção, só a determinação de chegar ao seu destino que supus ser eu. De sua chegada eu ouvia apenas o som de suas patas… suas unhas acertando o piso de ardósia, passo por passo. Chegou a intrusivos 50 centímetros de mim, se sentou e lá ficou, sem dar um latido, uivo ou rosnado; apenas sua respiração sonora, que passava a sensação de ira controlada.”
“Ele ficou me vigiando na mesma posição até você bater à porta e me convidar para esse café. O mero som que fizeras naquele momento, e o virar dos meus olhos para outro lado, se seguiu de uma agitação no ar muito bem presenciada, o som das patas em trote rápido e o sumiço daquele cão.”

“Então foi por isso que você fez uma breve vistoria pelo porão antes de subir. Quando eu te perguntei o que foi e você me respondeu que não foi nada?”

“Sim. E me admira muito você ter dito que não tem um cão, Apolo. Ele era sinistro e misterioso, é fácil pensar que seria o seu tipo de cão.”

“O mais provável é que você tenha alucinado. Lembre-se que você está a quarenta horas sem sono. Você pode ter cochilado, sonhado e nem ter se apercebido disso.”

“Cinco horas de cochilo e sonho constante, doutor. Não sei... e porque não fui ao Carbonífero de novo? Quer dizer, não parece que voltei no tempo.”

“Eu permiti que você se privasse de sono, Daren, porque esse fascínio, esse encanto, que nos tira o sono, faz parte do desenvolvimento de quem se envolve com magia. Tem sido assim comigo. Mas eu sugiro que você tome um chá e vá pra cama. Você alucinado é a última coisa que precisamos agora.”


Daren aceitou a sugestão e dormiu até o dia seguinte.


Segunda, quarto dia de internação do paciente.


Daren vem para o café me fitando, como se ele agora fosse o cão.




“O que houve, Daren?”

“Doutor Adler, se isso é uma espécie de teatro teu, teu Seidr ou um joguinho mental para me ajudar a despertar meu ajna, saiba que é um método muito grosseiro.”

“Não faço teatralidades, Daren. Minha ajuda é com sinceridade e não com joguinhos.”
“E você tem que levar em conta que você não só se privou de sono, Daren, mas sua alma viajou bilhões de anos pela quarta dimensão, causou danos fatais ao seu corpo físico… eu fico imaginado o que isso fez com sua mente!”

“Fui ao passado ontem. Por vontade própria. Aquele cão maldito...”

“Acalme-se e me conte em detalhes.”

“O cão visitou o quarto essa noite. Se sentou bem próximo de mim e já me acordou só com aquela ofegação maldita dele.”
“Quando abri os olhos eu vi a face do cão, na penumbra, me encarando a 10 centímetros de distância com aqueles olhos infernais de julgamento.”
“ ‘Está preparado para morrer, Daren?’, o cão disse.”

“Peraí… o cão disse?”

“Sim Apolo, o cão falou comigo e o demônio sabia o meu nome! Senti um calafrio na espinha com aquela voz trevosa saindo da boca esfumeante daquele cão, minha entranhas remexeram… não só pelo cão ter falado, foi também o que o cão disse sobre morte!”
“Depois de uns segundos, juntei coragem para responder ao cão… com outra pergunta: ‘Porque eu deveria?’ ”
“ ‘Você cruzou um limite solenemente proibido: você existiu antes ter nascido. É regra solene que qualquer existência sempre avance para frente no tempo, pois esse é o sentido natural do tempo. Você foi para bilhões anos no passado, alterou a linha do tempo, mesmo que tenha sido imperceptivelmente. Qualquer indivíduo que ouse retroceder no tempo e mudar a linha do tempo deverá sofrer execução.’ ”
“ ‘Uma execução, a morte?’, perguntei.”
“ ‘Sim. A lei requer execução com requintes de crueldade. E é essa sua condenação.’”
“ ‘Lei de quem?’ ”
“ ‘Minha. O universo deve ser e estar sempre em ordem. É inadmissível para mim a perturbação dessa ordem.’ ”
“ ‘E quem é você?’ ”
“ ‘Teu juiz, quando te condenei. Agora estou a ser teu carrasco.’ ”
“ ‘E como será essa morte?’ ”
“ ‘Cruel. E tendo a ser… criativo nesse ponto.’ ”
“ ‘Não posso recorrer, nem me defender da acusação?’ ”
“ ‘Não é mais uma acusação, é sentença. Mas há espaço para uma morte clemente. Tenho uma missão para você. Uma vez que você retroceda no tempo para impedir uma mudança maior e mais perigosa, essa atenuância poderia reduzir sua sentença a uma execução indolor. Eu poderia ser até mais clemente e lhe conceder algumas semanas para você se despedir da vida.’ ”
“ ‘Porque precisa de mim, se é tão poderoso?’ ”
“ ‘Porque é contra a lei inverter-se no tempo. Você já fez isso, está condenado, então será meu agente perfeito’ ”
“ ‘É contra a tua lei voltar no tempo, mas não é contra a lei mandar alguém fazer isso por você?’ ”
“ ‘Olhe para a sua insignificância comparado a mim, Daren. Tem certeza que você está em posição de questionar o meu proceder?’ ”
“Naquela situação com aquele cão infernal, tudo que eu pude pensar foi em ganhar tempo, fazendo o jogo dele. Mas, sinceramente, não sei se há saída para mim.”

“Vamos trabalhar na saída juntos, Daren. Mas conte-me, você fez o que ele pediu?”

“Bom, eu o informei que não tenho o controle sobre a viagem e é o meu inconsciente que age. Então o cão me ajudou a abrir o meu Ajna e disse que faríamos um teste e na próxima noite me daria as instruções da missão propriamente dita.”

“O cão me instruiu a colocar os aparatos que eu inventei, sentar-me tranquilo, respirar profundamente, até aí, como você tentou comigo Apolo. Mas ele me informou que as vibrações sonoras, no caso do Ajna, teriam que ser pronunciadas mesmo, não adianta provocá-las eletronicamente. Mas ele disse que as pedras do aparato funcionam. Ele me instruiu: ‘Vocalize o i continuamente.’ ”
“Após uns cinquenta minutos com esse exercício. O cão me instruiu a pensar na estrada de ferro sorocabana, mas como elas seriam se não estivessem lá; e a pensar em Sorocaba como se ela não fosse chamada de Sorocaba ainda.”
“Então eu me vi em uma floresta e, depois de percorrer uns quilômetros eu vi uma vila com um pelourinho no centro.”
“O cão me acordou e me disse que por aquela noite basta, e que voltaria na próxima noite para me instruir.”

“O que será que ele quer fazer, por meio de você, na época anterior à fundação de Sorocaba? O que se trama ao seu redor, Daren?”

“Doutor, você me disse que outros magos, em sua maioria, são maus e tem contatos com criaturas malignas de nomes impronunciáveis. Se não é você que está fazendo esse jogo mental, deve haver outro mago nas redondezas, talvez rival a você, que está competindo com você para me tornar uma espécie de discípulo, ou coisa assim.”

“Não Daren. Eu não acho que seja o caso.”

“ ‘Não, Daren, você não é isso, isso e aquilo.’ Você sempre faz esses rodeios para me revelar coisas mais e mais chocantes sobre o que acontece comigo! ...”


Daren me pega pela gola e grita desesperado:

 
“Pare de rodeios Odin Hórus Apolo Adler!!! O que está acontecendo comigo?!!”

“Eu não acho que você esteja interagindo com algum mago, fazendo jogos mentais, que te quer como discípulo e que tem contato com alguma entidade louca e perversa. Eu acho que você está em contato com uma entidade perversa.”

<< Parte Anterior                                                                               Próxima Parte>>

Nenhum comentário:

Fernando Vrech. Imagens de tema por andynwt. Tecnologia do Blogger.