Peças de Tabuleiro

    Continue, professor. Vocês investigaram a ruína?

    Paramos a canoa a cerca de 10 metros de uns escombros que, a princípio, não me inspiravam muita confiança. Mas aqueles escombros tinham uma extensão boa, talvez uma área de uns 30 metros quadrados.
    O local inóspito onde as ruínas ficaram era agora um atoleiro, que afundava nossas botas de cano alto até o final. Conforme nos aproximávamos das ruínas, em meio a um emaranhado de raízes, galhos e plantas aquáticas, o local me lembrou um lago, embora houvesse mais água do que terra naquela região. Árvores pantaneiras se faziam mais presentes na área, um indício de que a área possuía pouca profundidade e, um dia, talvez tenha sido solo seco, em vistas das constantes regressões do nível da água do mar Cáspio, ao longo das épocas.
   No lado oeste das ruínas encontramos vestígios de escavação. Claro, eram da escavação nazista que saiu às pressas do local, conforme o guia me havia contado. Com as ferramentes rústicas de escavação que trazíamos, podíamos começar por ali, pois já estava “amaciado” pelo Nazis.
   Cavávamos a lama buscando represar a água em volta. Impressionantemente, cavamos cinco metros até chegarmos a uma grande porta. Realmente, era um templo! Naquele momento, eu não ligava muito para a profundidade em que as fundações do templo foram achadas; mas após um estudo paleoclimático posterior, o Mar Cáspio só estaria a tal baixo nível durante a grande regressão do pleistoceno, isso a cerca de 20 000 anos atrás!

    No caso, então, templo seria dessa época, professor?

   Só seria possível haver solo seco naquela região, ainda com muitos afluentes do Volga à sua volta, em meados desse período. Ou então é a paleoclimatologia que se enganou… bom… é difícil chegar a fatos exatos.
   No entanto, encontramos, muito próximo ao portão mas, já em profundidade mais rasa, uma pequena pilastra com inscrições em turco arcaico. Infelizmente, nenhum dos dois desafortunados arqueólogos, Ermolai ou eu, nem o nosso guia entendia turco; mas a julgar pelo rústico desenho em relevo, na pilastra, que mais tarde, ao estudar amostras, descobrimos que era pintado de vermelho, podíamos saber que era um bondoso aviso ao explorador da época, que julgamos ser em meados de século VIII, a época em que os turcos dominavam essa região. 


    Mas que desenho era, professor?

    Era uma figura com chifres e cabeça de porco. Remete, claro, a Erlik, o deus da morte da antiga religião turca. Ou seja, presumimos ser um aviso de perigo.
    Mas não demos bola para isso e adentramos na ruína. Dentro sim, ela era grandiosa! Mas não tinha nada dentro, nem bancos, nem altares, apenas uma mesa de pedra na parede oposta à entrada, ou seja, no fundo. Em cima dela, havia um pergaminho. Depois de olharmos para as paredes, cravadas de inscrições pictográficas maravilhosas e desconhecidas, entendemos que o pergaminho era uma espécie de tradução das paredes.
    As pictografias eram lindas! Eu imagino que eram coloridas no eu tempo. Eram todas emolduradas por quadrados perfeitos e tinham três padrões de tamanho: pequenas, com cerca de cinco centímetros, médias com sete centímetros e grandes, com dez centímetros.
   Concluímos, então, que a escrita das paredes eram do tempo em que o templo era usado por seus construtores originais, a 20 000 anos atrás e que alguns eruditos, ao longo p das eras, entravam no templo, já em ruínas para tentar entender as pictografias. Mais tarde, o templo passou a ser temido, como denota a pilastra turca.
   O manuscrito que achamos já tinha informações completas no idioma persa e, claramente, indicava o texto de cada uma das quatro paredes do templo com os números de 1 a 4.



  Esse é o Manuscrito da Verdade Eterna, então. 

   Sim, um manuscrito que é uma tradução de uma mensagem de 20 000 anos atrás. 

    Mas seria possível, professor, uma civilização com tecnologia da escrita a 20 000 anos atrás?

    Todos os povos da antiguidade, ao contrário dos historiadores, acreditavam em civilizações humanas muito avançadas anteriores à idade da pedra. De fato, os historiadores cunharam da própria mitologia das antigas civilizações esse sistema de divisão de eras: idade da pedra, idade do cobre, do bronze, do ferro. Mas as culturas antigas, crentes em suas respectivas mitologias, acreditavam em eras antes da era da pedra. 


    Antes da idade da pedra? Como chamavam essa era?

    Idade da prata e outra ainda antes: idade de ouro, ou Era do Ouro. Nessa era do ouro, essas civilizações antigas acreditavam que os deuses moravam junto com a humanidade; provendo-lhes paz, prosperidade e conhecimento. Mas os deuses foram embora e a humanidade foi decaindo e esquecendo a civilidade e o conhecimento… até que chegou a idade da pedra, onde os humanos eram meros bárbaros.
   Muitas civilizações diferentes contaram a mesma história: os gregos, os hindus, os maias; embora não tivessem se desenvolvido em contato umas com as outras.
   Esse templo pode ser o único vestígio que temos dessa tal Era do Ouro. E a importante informação contida naquelas paredes é o que enlouqueceu alguns, tornando o templo algo a ser temido. 


   O conteúdo do pergaminho da Verdade Eterna foi publicado nas próximas páginas dessa edição de “Insólito.” (e que pode ser lido pelos leitores do blog aqui.)
    O senhor não encontrou mais nada no Spentavahista, professor?

Sim. Na verdade descobrimos que o pergaminho é só uma síntese. Há uma versão bem mais estendida! 


    O senhor pode nos revelar?

    Só o que eu tive coragem de traduzir. Porque depois eu preferi parar, sabe, estava chegando no meu limite. O que eu traduzi conta com mais pormenores sobre as entidades Ahura-Mazda e Arimane que, segundo o pergaminho são as entidades da Ordem e do Caos, respectivamente. De fato, o Zoroastrismo é uma antiga religião que anda se baseia na adoração de Ahura-Mazda. É possível que o próprio tradutor das paredes tenha pertencido a essa religião. 


   Será que esse tradutor não distorceu a mensagem do templo de acordo com as próprias crenças?

    Eu tirei fotografias das paredes e depois eu pude fazer uma análise fonética, me baseando na língua persa antiga. De fato, há uma pictografia, do tamanho grande, cuja fonética, segundo a tradução, parece fazer sentido: soa como oúr’amaz correspondendo a Ahura-Mazda e anriman correspondendo, evidentemente, a Arimane. Portanto, o tradutor foi fiel, até certo ponto, extrapolando, talvez, os nomes dos deuses que eles conhecia. De fato, o Zoroastrismo pode muito bem ter se baseado nesse pergaminho. 


    Mas, e o mais importante, professor Akshan, o que o senhor conseguiu traduzir?

    Vou recitar aqui, então: 

    O adepto deve esquecer o arquétipo do bem e do mal. Embora Ahura-Mazda pareça seja um ente que busque a organização do universo, nem ele e nem sua irmã oposta Arimane tem feito bem à vida concreta no cosmo.
   Há disputa entre os dois, assim como entre os outros irmãos opostos. Mas a briga deles é a mais acirrada. Enquanto Ahura-Mazda leva povos a um sistema opressor de organização e regras; Arimane leva outros povos a anarquia até que a falta de progresso e a violência leve a sua auto-derrota.
   Nenhum desses entes primordiais enlouquecidos dá valor a humanidade ou para qualquer outro povo. Tudo para eles é um jogo de ideais, um debate cujos argumentos somos nós, os seres que eles buscam influenciar em busca de ganhar razão na discussão. Eles nos levam a banharmo-nos com o sangue dos nossos semelhantes, e nos prejudicam com o excesso das ideias deles: ódio fulminante, vingança, justiça sem clemencia, anarquia... Mas eles não possuem nenhuma preocupação com o nosso futuro e o cosmo não passa de um grande tabuleiro onde entidades loucas jogam conosco ao seu bel-prazer. 
   Quando a discussão acabar, quer tenha havido consenso ou não, eles poderão simplesmente nos exterminar, somos germes para eles. Toda a liberdade intelectual que pensamos possuir, ao longo das eras, são mera ilusão. Nossas mentes são escravas dos ideais de insanidades primordiais.
    Essas insanidades até se manifestam fisicamente, algumas vezes. Escolhendo animais, objetos que julgam combinar com seu modo de pensar. É por isso que é perigoso conversar com animais ou objetos; não sabes que, naturalmente, animais não falam? Nem que objetos não se movem?
    Esse ancião que aqui escreve essa mensagem nessas paredes tem feito isso com profunda tristeza. Pois tenho notado que Ahura-Mazda tem falado com humanos, hora como águia, hora como “o grande animal orelhudo”, hora como “o tigre de dente de lança”. Sim, Ahura-Mazda se interessou por essa “ilha esférica” e, do “imenso mar da escuridão,” cá chegou, para fazer sua jogada, para formar os seus fanáticos e dominar tudo o que se conhece, para “curar” a nossa sanidade com suas ideias maníacas.


   Depois disso abandonei o trabalho de tradução e preferi me concentrar em outros projetos. Sabe, mais leves, uma expedição atrás da outra, como preferíamos, meu colega Ermolai Dmitriev e eu. 


    Pois é leitores, isso é tudo que o professor sabe sobre a sua descoberta do Spentavahishta. Espero que seja tudo obra de escritores de ficção de 20 000 anos atrás; porque é preocupante viver a vida sabendo que um objeto em seu quarto ou o seu bichinho preferido pode simplesmente começar a falar com você, em nome de uma insanidade ultra-poderosa que só não te explode porque quer te usar como um brinquedo, uma mera peça de tabuleiro... 

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